Mudança de planos
Hoje eu iria escrever sobre a esquerda brasileira, ou melhor,
já estava escrevendo. Porém parei no meio do texto, e explicarei o porquê. Fui à um evento ontem à noite, e no momento o tema tem maior importância para mim,
até porque a esquerda não vai solucionar seus problemas de um dia para o outro.
Mas antes de falar sobre a noite, contarei algo que aconteceu
comigo durante o dia. Eu e um grupo de amigas estávamos conversando sobre
representatividade, para ser sincero, elas estavam falando e eu apenas ouvindo.
Estava calado pelo fato de que eu não participo de nenhuma minoria, e por conta
disso, sou “representado” em boa parte dos casos.
Agora vamos à noite. Fui convidado para uma exposição de
artes. Exposição que foi feita e organizada por escolas que trabalham na
educação de jovens e adultos. Ah, que noite incrível! Pessoas incríveis,
principalmente um dos professores coordenadores e minha acompanhante, conversa
boa, de política à dança, música ao vivo em pleno dia do musico, obras
incríveis, e além disso, pessoas. Repito. Pessoas.
Abro parênteses. Peço que notem o uso do ponto de exclamação.
Nunca uso, mas a situação merece. Digo que merece porque, além da noite ter
sido incrível, foi minha primeira vez como escritor em um evento. Foi a
primeira vez que eu fui chamado para algo por ser escritor. Fecho parênteses.
Mas voltando. Conforme fui entrando na exposição, vi algumas
obras de arte e li sobre outras, e até esse momento eu olhava como pessoa e não
como escritor, até que cheguei num desenho que imitava uma pintura rupestre.
Chegando no desenho, notei que um senhor ia chegando cada vez
mais perto. E assim que ele chegou ao meu lado, disse: “Gostou? Eu que fiz”. E
eu respondi com um sorriso no rosto: “Está lindo. Não conseguiria fazer nem a
metade. Parabéns”. E assim que terminei de falar, veio a tréplica: “Ah seu
moço, é simples. Qualquer um faz”. Entretanto, enquanto a conversa acontecia,
era impossível não notar o brilho nos olhos do artista.
E já que citei o artista, falarei um pouco, que significa
muito, que eu reparei nele. O homem com as mãos habilidosas era um nordestino,
porque o sotaque não mente, com escolaridade baixa, até porque ele está num
projeto de educação para adultos, e além disso, era um homem com roupas
humildes. Porém, naquele momento, um detalhe sobressaiu todos os outros. O
brilho nos olhos. Brilho que mostrava a felicidade de um marginalizado em estar
participando de algo e sendo prestigiado por isso.
E naquele momento eu vi a delícia que é ser representado, de
se sentir em um conjunto, de ser prestigiado por algo feito por você. Vi isso
graças a uma amostra de arte, graças a um homem que, provavelmente, nunca mais
verei na minha vida, e graças ao convite e oportunidade de uma pessoa, que
apareceu a pouco tempo, mas que já ocupa um espaço enorme no meu coração.
Por fim, farei o que não fiz na parte da manhã. Darei minha
opinião sobre o assunto que me deixou mudo no período em que o sol nasce.
Representatividade é tudo.

Representividade...representar...rever...reler...Talvez falte isso Pequeno grande escritor ....Colocar se no lugar do outro...Sentir na pele ...O brilho refletiu nos olhos daquele aluno cansado ,porém ficou refletido na sua alma e em suas nobres palavras...Obrigada por oportunizar esse momento ...Até
ResponderExcluirNão tenho palavras para agradecer por tudo. Mas de qualquer forma, obrigado pela oportunidade e por todos os ensinamentos. A luta nunca acaba
ExcluirLindo texto. Profunda reflexão.
ResponderExcluirParabéns!!!
Muito obrigado.
ExcluirSempre cabe a nós a reflexão. Muitas das vezes os maiores ensinamentos vem das menores coisas !!
Me sinto representada por alguém que consegue "ver" o sentimento do outro. Parabéns!
ResponderExcluirMuito obrigado.
ExcluirQuando perdemos o medo da crítica e realizamos nossos mas profundos sonhos, a vida se torna de tons pastéis.
ResponderExcluirA representatividade reflete a empatia de um pensamento puro sobre uma mirada brilhante.
Felicidades pelo texto.
Concordo plenamente. Muitas das vezes o medo cala, limita, ou até mesmo cega.
ExcluirE como foi dito no texto " Representatividade" é tudo.
Muito obrigado.
Lindo texto.
ResponderExcluirQuanta sensibilidade, quanta destreza no manuseio com as palavras.
Palavras, sentimentos, olhares, brilhos.
Somente os mais especiais são capazes dessa percepção.
Parabéns!
Obrigado, obrigado, e obrigado !!
ExcluirNão tenho palavras para descrever a tamanha felicidade que eu sinto ao ler isso.
E quanto a percepção, todos nós somos capazes, porém nem todos conseguem transmitir. Mas novamente, obrigado.
Texto Maravilhoso!
ResponderExcluirÉ muito bom ver que ainda existem pessoas que se colocam no lugar do outro, esta é a verdadeira essência da humanidade. PARABENS!!
Muito obrigado. Se todos se colocassem no lugar do outro viveríamos num mundo melhor, porém a luta continua.
ExcluirParabéns pela sensibilidade!!!
ResponderExcluirCaro colega, que texto reflexivo! Sabe esse brilho no olhar é o que buscamos na Ed. de Jovens e Adultos! Buscamos além do conhecimento formal, que é necessário. Buscamos o conhecimento de si, da cidadania que outrora se perdeu ou nem sequer encontrou! O brilho no olhar, de quem percebeu que pode ser, que pode conquistar, o protagonismo em ação! Parabéns!!!
ResponderExcluirPrimeiramente, muito obrigado pelas palavras.
ExcluirJá em segundo lugar. Pelo que notei, a senhora é uma das responsáveis pela Educação de Jovens e Adultos, e eu, tanto como escritor quanto como pessoa, queria parabenizá-la pelo projeto lindo. Vi uma importância tamanha em apenas algumas horas dentro da exposição. E sempre que possível tentarei escrever sobre o projeto, sendo por conta de uma conversa, outra exposição ou qualquer coisa do tipo.
😘
Excluir