Segunda carta ao inferno
Inferno, 30 de maio de 1964
Segunda carta que eu escrevo, e pouparei os comprimentos.
Dessa vez não escrevo por conta do tédio, mas sim da insônia. Tive insônia a
vida toda, jurava que depois de morto isso não ia acontecer mais. Como sempre, errei. Mas vamos para a parte importante. Hoje fiz uma descoberta aqui em
baixo. Mas antes direi o contexto.
Assim que notei que estava vindo para o inferno, um desejo,
que antes era impossível de ser realizado, saltou da parte mais profunda do meu
inconsciente. Pensei exatamente assim: “Vou conhecer o homem no qual eu li
tantos livros falando sobre. Conhecerei Virgulino. Conhecerei Lampião”. Admito
que fiquei animado, mas também admito que fiquei com medo da probabilidade de
encontrar o Rei do Cangaço.
Depois de um tempo aqui, considero que já tenho intimidade
para perguntar sobre determinadas pessoas. Hoje, durante o lanche, ou o banho
de sol, não sei como devo chamar, perguntei a mesma alma que me esclareceu quanto
aos latifundiários sobre o Lampião. A pergunta foi exatamente essa: “Desculpa a
minha pouca vergonha, mas o Lampião fica aonde aqui? Não vi ele em lugar
nenhum, e queria ao menos um aperto de mão”. E a alma respondeu: “Depois de
tudo o que ele passou, você ainda acha que ele deveria estar aqui?”.
A resposta grosseira me colocou a pensar. E pensei por muito
tempo, até porque não há muito o que fazer aqui. Seria injusto se Lampião
estivesse aqui. O capitão teve os pais assassinados na sua frente, viveu uma
parte da vida em condições precárias, teve que brigar com a fome e a sede do
sertão nordestino, e além disso, brigou contra todos que faziam os sertanejos
sofrerem, entre eles, alguns coronéis, militares etc etc. Se bem que não
podemos esquecer de todos os seus crimes, entre eles, assassinatos, dias de
tortura, assaltos etc etc. Um dia ouvi uma musica, não me lembro de quem, que dizia: "O cangaço continua de gravata e jaquetão, sem usar chapéu de couro, sem bacamarte na mão, matando muito mais que o bando de Lampião", e depois de pensar um pouco, tudo fez muito sentido
Não sei quais são as regras e os limites para entrar no céu,
porém os métodos parecem ser justos, até porque analisaram todo o histórico do
Capitão. E não que ele não tenha cometido diversos pecados, porque cometeu, mas
temos que concordar que a situação na qual ele cresceu e viveu contribuíram para isso.
E os inimigos do Lampião também não eram um grande exemplo de justiça e
solidariedade, até porque matar alguém e usar sua cabeça como troféu na frente de uma igreja não é um bom exemplo.
Como diria Caetano Veloso: “Tem dias que o mal é bom, e o bem
cruel”. Falando no cantor, sinto falta de suas músicas. Não imaginava que uma
coisa tão simples faria tanta falta. Viva Caetano. Viva o Capitão. E assim que
eu puder entro em contato. Um beijo em todos.
Um rebelde sem causa um
pouco conhecido.

Quero a parte 3 pra ontem!
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