Veia aberta

Começo o texto falando que hoje, em pleno 2019, me senti nos anos 50. Década em que Getúlio suicidou-se, que JK prometeu evoluir 50 anos em 5, que o Brasil ficou em segundo lugar numa copa do mundo, e que cerca de 50% da população brasileira era analfabeta.
Agora, vou falar o porquê me senti nos anos 50. Ou melhor, vou falar sobre um livro escrito nos anos 50. O livro “Quarto de despejo – diário de uma favelada” fala sobre como era a vida de um pobre no antigo Brasil, que é muito atual por sinal. No Brasil, do livro e de 50, a escritora passa fome, o Rio de Janeiro era foco das emigrações, e os políticos, que como hoje, não faziam nada.
Porém, vou dar enfoque a apenas um tema tratado no texto. A fome, que é tão bem descrita que a barriga de quem lê até dói. A autora fala que só não havia fome, quando ganhava pão, quando os açougueiros doavam ossos, e quando os feirantes davam a sobra das verduras, das frutas etc.
“Mas o que a fome do livro tem haver com a sua “volta” aos anos 50?”, o leitor deve estar se perguntando. E vou dizer abaixo. Peço desculpas por me envolver tanto no texto, me envolvo tanto que até enrolo. Novamente, perdão.
Hoje, fui a feira e logo na saída vi uma mulher, mal vestida, suja, e como a autora do livro que citei, negra. Vi a mulher pedindo uma cabeça de alho a um feirante, e novamente, a autora do livro veio a minha mente. E quando ouvi o pedido eu me senti rodeado de paletós, senti que Getúlio acabará de apertar o gatilho mirando no próprio peito, e que Juscelino havia iniciado a construção de Brasília. Ah, a fome, problema que persiste no Brasil desde os seus primórdios. Se fizessem um livro chamado “As raízes abertas do Brasil” a fome seria uma delas.
Abro parênteses. Se bem que a fome de hoje mata, a fome dos anos 50 era mansa como um cão domado. Digo mata, não a fome em si porque essa sim sempre matou, mas digo quem sente a fome, quem sente a fome mata. Mas isso é assunto para outro texto. Fecho parênteses.
Vamos para o fim. Não vou dar soluções para a erradicação da fome Brasileira, e nem pedir aos políticos que tentem solucionar este problema. Porém tenho um pedido aos escritores, e espero que eles que eles me atendam. Coloquem cada vez mais ficção nos seus textos, a realidade dói.

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