Primeira carta ao inferno

Inferno, 31 de março de 2064.

Espero que vocês estejam lendo esta carta, até porque foi difícil achar um papel e uma caneta. Caso estejam, quero dizer que estou bem, e que a vinda para o inferno não é tão turbulenta como imaginávamos. Eu já sabia que esse ia ser o destino da minha alma, não sabia que seria tão rápido, mas sabia que uma hora a minha vez ia chegar. Pelo menos a morte foi rápida, privilégios de um infarto. Desejo que todos fiquem bem sem mim, porém, para que não fiquem preocupados, falarei um pouco daqui.
A viagem foi toda feita numa barca (extremamente parecida com o livro que eu obriguei vocês a lerem, “O auto da barca do inferno”, e com a peça que eu atuei quando tinha uns 15, 16 ou 14 anos, não me lembro muito bem). O único desconforto foi o número de pessoas. Nunca gostei de andar apertado, e como se fosse um castigo, tinha muita gente para pouco espaço. Ficamos, digo eu e meus companheiros de viagem, em torno de 2 horas, sentados até chegar em frente aos famosos portões do inferno. E sim, eles são tão grandes quanto falam.
Assim que cheguei, desci da barca e agradeci o motorista, não sei como devo chamar a alma que me trouxe ao inferno. Fui recepcionado por uma espécie de porteiro, e ele me apresentou aos meus aposentos. Aposentos que serão utilizados por toda a eternidade. Entrei no lugar, que mais parecia um quarto, sentei e admito que chorei durante uns 30 minutos. Chorei de medo. Sozinho e no inferno, no momento, nada poderia ser pior para mim.
Fiquei nos meus aposentos por muito tempo, imaginava que esse seria o “meu inferno”, viver sozinho pela eternidade. Até que o “porteiro” me chamou para o recreio, e foi nessa hora que pensei: “Não está tão ruim. O Carandiru era bem pior”. Cheguei e vi de tudo. De tudo mesmo.
Economistas, políticos, líderes de movimentos, grandes vilões da humanidade, pessoas de esquerda e de direita, latifundiários, padres, pastores, kardecistas, amigos, e até mesmo membros da minha família. Porém, não vi dois tipos de pessoas, não vi nenhuma criança e nenhum morador de rua, algo que era tão comum quando eu era vivo. Sentirei falta da pureza das crianças, e dos sorrisos, sem um pingo de falsidade, dos moradores de rua.
Voltando às figuras que encontrei. Vi um padre que queria que a minha família doasse terras à “igreja”. Terras que não foram doadas, até porque não beneficiaríamos a igreja e sim o padre. Vi um pastor, que apenas com seu trabalho comprou muitas fazendas em Goiás. Vi políticos de todos os partidos possíveis, desde os de extrema direita aos de extrema esquerda, e com isso percebi que realmente não existem santos na política. Por incrível que pareça, vi muitos economistas e banqueiros juntos. Segundo uma alma que estava do meu lado, uma parte da pobreza do mundo é culpa deles, por conta deles “empregadas domesticas”, como eles mesmo dizem, não podem ir aos EUA. Vi figuras históricas, Hitler e Mussolini, um calado e o outro gorjeando músicas italianas. Continuo no próximo parágrafo. Tinha medo de parágrafos enormes quando vivo, e continuo tento depois de morto.
Encontrei os latifundiários, perguntei à alma que estava do meu lado o porquê eles estavam lá, e ela disse: “Com todo o egoísmo, assassinatos e arrogância. Haveria outro lugar ?!”. Quanto às pessoas, eu já esperava, mas também com tantos pecados. Algo que eu não entendi foi o fato de alguns amigos e familiares estarem no inferno, eram todos Santos, santos com letra maiúscula.
Por fim, até porque vocês têm que cuidar de tudo o que eu deixei, não se preocupem comigo. Estou em casa. Assim que possível entro em contato novamente, pois a minha estadia aqui pode ser tediosa.

Um rebelde sem causa um pouco conhecido.

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